MIGUEL RODRIGUES
CARPE DIEM, HOUDINI IS NOT DEAD
Carpe Diem revisita um percurso quotidiano que deixei de fazer em 2009, o troço da Estrada Nacional 10 entre Sacavém e Vila Franca de Xira no primeiro ano em que dei aulas e o primeiro percurso que mapeei. Interessou-me perceber o que acontece no regresso a um lugar quando as razões que o estruturavam já não existiam. Nesse reencontro, impôs-se a presença de uma fábrica em ruína, situada junto a um troço de estrada entretanto transformado por uma nova construção.
A alteração física da estrada e a consequente erosão da memória do percurso cruzam-se com a perda de função da fábrica, produzindo um desfasamento entre experiência passada e perceção presente. Partindo das memórias fragmentadas que dele persistem, o espaço deixa de ser uma continuidade vivida e torna-se um campo de tensões entre o que é reconhecido e o que resiste à identificação. A ruína, enquanto espaço desativado e aberto, intensifica esta condição ao suspender a legibilidade funcional e expor o lugar como experiência sensível, mais do que como estrutura organizada. O trabalho instala-se nesse intervalo, explorando a fotografia enquanto dispositivo que simultaneamente fixa e reduz essa experiência ao traduzi-la numa superfície plana.
Neste contexto, o trabalho emerge como uma poética do vestígio. Quando a relação entre corpo, memória e espaço se fragiliza, o vestígio deixa de operar como confirmação de um sentido estabilizado e torna-se instável, disponível a novas inscrições. Uma perda que é condição de abertura: a imagem deixa de remeter para um referente fixo e passa a produzir uma intensidade que irrompe na temporalidade da repetição. A poética do vestígio afirma-se assim nesse desvio, onde o espaço se faz devir presente.
r